
“Eu não lhe dei, Adão, nem um lugar predeterminado, nem quaisquer prerrogativas, a fim de que você possa tomá-los e possuí-los através de sua própria decisão e de sua própria escolha. Assim Deus fala na Oração Sobre a Dignidade do Homem, do pensador italiano Pico della Mirandola (1463-1494). Naquelas palavras está apresentado um dos temas centrais do humanismo renascentista: a liberdade do homem, que o torna um ser capaz de criar seu próprio projeto de vida.Movimento literário e filosófico originado na Itália – na segunda metade do século XIV – e depois difundido em outros países da Europa, o humanismo constituiu um dos fatores fundamentais do surgimento da cultura moderna. Nascido nas cidades e comunas que, na época, lutavam por sua autonomia, o humanismo repudiou a ordem e a hierarquia cósmica contidas na visão de mundo medieval e resguardadas pelo Império (o Sacro Império Romano-Germânico), pela Igreja e pelo feudalismo. Dentro dessa ordem hierárquica o homem ocupava lugar insignificante e inalterável, imerso num mundo que era visto como ocasião para tentações e pecado. Em contraposição à mentalidade medieval, os humanistas exaltarão a dignidade do homem, proclamando que sua liberdade pode e deve ser exercida tanto em relação à natureza quanto à sociedade. Como aspecto do Renascimento, o humanismo reintegra o homem na natureza e na história, reinterpretando-o em função dessas coordenadas.
Humanismo, liberdade e dignidade do homem.
Numa prisão espiritual
Em agosto de 1495, um frade agostiniano, vindo de Cambrai, chegou a Paris com o objetivo de obter o título de doutor em teologia. Tinha sido contemplado com uma bolsa de estudos, mas os estipêndios, embora recebidos com regularidade, eram tão parcos que foi obrigado a alojar-se na domus pauperum do colégio Montaigu. Situado no Quartier Latin, sobre a colina de Sainte Geneviève, o edifício era triste e sombrio, os dormitórios sujos, as paredes nuas e geladas. As refeições eram péssimas: frequentemente os ovos e a carne eram servidos quase estragados e o vinho mais parecia vinagre.Tudo isso poderia ser visto com certa naturalidade por quem ainda tivesse uma visão medieval do mundo, centralizasse a vida em torno do espiritual e negasse o valor das coisas sensíveis. Mas o frade recém-chegado não pensava e nem sentia desse modo. Para ele o mundo material não era necessariamente residência do pecado e reino da contaminação, e cuidar do bem-estar físico não significava afastamento da bem-aventurança eterna.Piores que o desconforto ou os jejuns eram os sofrimentos pelos quais tinha que passar a inteligência diante do ensino escolástico. Impregnado de sutilezas insípidas, de exagerado formalismo, e limitado a discutir temas irrelevantes.O colégio Montaigu era, na verdade, uma verdadeira prisão espiritual, que poderia ter sido útil para Inácio de Loyola (1491-1556), que ali suportou, durante vinte anos, uma disciplina de castigos corporais para educar a vontade. Mas era absolutamente repugnante para a natureza nervosa, independente e moderna do jovem frade Erasmo. Ele era exemplo vivo de uma nova ordem de coisas, da mentalidade renascentista, da qual veio a se tornar um dos maiores representantes.
confiada a um preceptor, com o qual aprendeu as primeiras letras. Mais tarde, em 1475, o pai providenciou seu ingresso na escola dos Irmãos da Vida em Comum, em Deventer. Era um estabelecimento famoso do norte do continente, no qual se respirava a atmosfera humanística que imperava na Renascença.Em Deventer Erasmo encontrou um dos melhores ambientes intelectuais da época, recebendo influência de humanistas como Johannes Sintheim e Alexander Hegius (1433-1498), e viveu feliz com a mãe e o irmão. Contudo, esses anos de bem-estar estavam fadados a terminar relativamente cedo: Margared faleceu e ele foi obrigado a voltar para Goude. Logo depois, o pai também morreu, vitimado por uma das pestes que, naquele tempo, assolavam a Europa periodicamente. Pieter e Erasmo foram então enviados pelos tutores a Hertogenbosch, onde encontraram uma disciplina de claustro extremamente desagradável. Não podiam, no entanto, desobedecer aos tutores e concluíram os estudos, esperando ansiosamente o momento de se tornarem livres. A solução era entrar para alguma ordem religiosa. E, de fato, Pieter ingressou no mosteiro de Sion, perto de Delft, enquanto Erasmo tornava-se noviço agostiniano em Steyn. Cinco anos depois (1492) era ordenado sacerdote e concluía um longo período dedicado ao estudo dos autores clássicos, gregos e latinos, solidificando sua formação humanística. Por outro lado, os rigores da vida monástica acenderam em Erasmo a paixão pela liberdade pessoal e a irritação com tudo aquilo que pudesse restringi-la Formaram-se assim os traços essenciais de um complexo caráter integralmente moderno, que colocava acima de tudo a independência intelectual, a liberdade de espírito e o culto do humano em todas as suas formas.Ordenado padre pelo bispo de Utrecht, Erasmo de Rotterdam pôs toda a inteligência a serviço de seus ideais e providenciou, através de negociações secretas muito hábeis – não querendo opor-se abertamente aos superiores – sua nomeação como secretário do bispo de Cambrai. Assim poderia libertar-se dos horizontes limitados do mosteiro de Steyn e tomar contato com o mundo, pois o bispo precisava dele para acompanha-lo até Roma. A viagem, no entanto, não chegou a ocorrer, tendo sido adiada várias vezes, o que permitiu ao moço, ansioso por liberdade, gozar uns tempos de vida sem problemas. Não era obrigado a dizer missa, podia divertir-se à vontade, conhecer pessoas inteligentes, aprofundar-se nos autores clássicos e, principalmente, dedicar-se à redação do diálogo Antibárbaros.A boa vida, contudo, deveria acabar. Afinal o bispo não precisava mais de secretário e o alegre frade deveria voltar para o convento e dedicar-se aos mesmos afazeres dos colegas de batina. Mas Erasmo tinha tomado gosto pela liberdade e outra vez teve que usar de habilidade para mudar a ordem normal das coisas. E o faz tão bem que convenceu o bispo a envia-lo à capital francesa para obter o título de doutor em teologia. A vida em Paris tinha enormes vantagens, pois a universidade era um verdadeiro centro internacional de cultura e Erasmo poderia desfazer-se do provincianismo do país de nascença.E realmente isso aconteceu, apesar de confinado a maior parte do tempo naquela prisão do corpo e da alma que era o colégio Montaigu. Nos momentos em que podia ver-se livre, procurava o contato com outras instituições e outras pessoas. Foi assim que conheceu Robert Gaguin (1425-1502) e Faustus Andrelinus (1462-1518), mestres incontestáveis do humanismo na França. No próprio colégio podia aprofundar o conhecimento dos primeis pais da igreja e rivalizar com os maiores epistológrafos antigos e modernos.No entanto, isso tudo não o isentava dos aspectos negativos da vida em Montaigu, e as torturas físicas acabaram por deixa-lo enfermo. Tal fato permitiu-lhe, mais uma vez, pôr a sagacidade prática em funcionamento e safar-se para a terra natal, sob pretexto de necessitar de cuidados médicos especiais.Humor e Teologia
O Elogio da Loucura
Continuando suas viagens, concretiza o velho sonho de estagiar na Itália, centro do humanismo e de toda a renovação intelectual renascentista que se estende pela Europa. Não só as bibliotecas italianas, onde poderia encontrar preciosos manuscritos, mas a tipografia de Aldo Manunzio (1450-1515) excitam-no enormemente, e passa horas e horas a trabalhar com belíssimos caracteres tipográficos, sobretudo os mais miúdos. A imprensa é para ele mais do que uma simples técnica: é o instrumento maravilhoso que abrirá todas as portas da cultura, inaugurando uma nova era.Em 1509 a Coroa Inglesa passa à cabeça de Henrique VIII (1491-1547), que Erasmo conhecera desde menino e com o qual chegara a corresponder-se em latim. O monarca estava sempre imerso na leitura dos Adágios, segundo informação do ex-aluno Lorde Mountjoy, e os amigos insistem para que Erasmo volte à Inglaterra, pois poderia conseguir do novo soberano uma pensão permanente. Em 1509 deixa definitivamente a Itália e hospeda-se em Londres, na casa de Thomas More, onde encontra o ambiente ideal para o estudo e as longas conversas eruditas. A saúde frágil, porém, perturba-lhe a tranqüilidade, e crises de cálculo renal obrigam-no a longas horas de repouso. Erasmo reage ao mal por meio do recurso que lhe servia até como remédio: escrever. Nasce assim uma obra-prima da literatura de todos os tempos e de todas as línguas: O Elogio da Loucura.Apenas sete dias bastaram para escrever a obra, graças à absoluta liberdade de concepção e total ausência de compromissos. Não se tratava de trabalho feito sob encomenda ou programado para obtenção urgente de dinheiro para subsistência. Era uma brincadeira para passar o tempo, mas quem assim brincava tinha atrás de si toda uma vida dedicada à melhor literatura clássica e mais as experiências de um homem voltado inteiramente para as coisas do espírito.Erasmo tinha sofrido todas as agruras da pobreza e da bastardia e tinha convivido com príncipes e poderosos. Tinha passado pelos rigores da vida monacal e vira bispos comprazerem-se no luxo e na libertinagem. Fora testemunha do furor criminoso dos príncipes da Itália em guerra e vira a miséria aflitiva do povo. Tudo isso soava-lhe profundamente estúpido e ao mesmo tempo a própria estultícia parecia ser o motor dessas ações absurdas. Passou-lhe então pela cabeça, pouco antes de chegar à Inglaterra, atravessando os Alpes, a idéia de colocar isso tudo no papel. As crises de cálculo renal, na casa do amigo More, forneceram-lhe as circunstâncias propícias para fazer a Loucura subir ao púlpito, sempre acompanhada pela Lisonja e pelo Amor-Próprio, e elogiar a si mesma.O resultado foi a crítica impiedosa dos juristas minuciosos, dos filósofos escolásticos, dos nobres arrogantes, dos bispos luxuriosos, dos negociantes sórdidos e estúpidos, dos militares que julgavam ser suficiente atirar uma moeda numa bandeja para adquirir a indulgência que os deixaria puros e limpos como quando nasceram.
Todo O Elogio da Loucura é uma mascarada, mantida viva pela ambigüidade estrutural que anima a crítica aos costumes e aos poderosos, e pela inspiração vibrante vestida de admirável roupagem estilística. A opinião pessoal do autor permanece inacessível e, se alguém se atrevesse a discutir com ele por causa do sarcasmo e das críticas que distribui generosamente, poderia responder, tranqüilo, que não foi ele quem disse isso, mas Dona Estultícia. E quem deve tomar a sério a loucura?O próprio livro nada tinha de louco e, muito embora tudo parecesse brincadeira para homenagear o anfitrião Thomas More (em grego, loucura é moria), a pequena sátira obteve imediatamente enorme sucesso e desempenhou papel fundamental na eclosão da Reforma protestante. A maior parte daquilo que os reformadores objetavam à Igreja encontrava-se criticado por Erasmo. O Elogio da Loucura, sob a aparência de festivo fogo de artifício, foi uma das obras que mais abalaram seu tempo, funcionando como verdadeiro panfleto revolucionário. Constituindo a mais ousada e a mais artística obra de sua época, era consumida amplamente por aqueles que voltavam de Roma irritados com os desregramentos de papas e cardeais, a viver a vida suntuosa de príncipes, em contradição com os preceitos do cristianismo original. Os revoltados reclamavam uma reforma geral da Igreja e alimentavam-se ideologicamente das críticas do brilhante humanista Erasmo de Rotterdam.Liberdade ou servidão?As críticas aos costumes e às instituições, escritas em 1509, vinham-se juntar a uma nova concepção da vida cristã, tal como Erasmo tinha exposto no Manual do Cristão Militante (1501). Nessa obra sonhava com um ideal religioso ao alcance de todos, uma religião interiorizada e humanizada, sem os excessos místicos de boa parte da Idade Média e também sem o racionalismo estéril do formalismo escolástico. Aliam-se também a seu trabalho como filólogo, preocupado com revisar os erros da vulgata, e dedicado a uma nova tradução, para o latim de todo o Novo Testamento. Isso sem contar as inúmeras edições críticas, que preparou, das obras dos primeiros pais da Igreja, especialmente as de São Jerônimo.Há muito, portanto, Erasmo estava procedendo a uma eficaz reforma da doutrina cristã, ao atacar o pensamento medieval em suas bases. Não possuía, contudo, aquele grão de loucura que ele mesmo achava necessário para fazer o mundo caminhar mais depressa. Não era um revolucionário que pegasse em armas para atacar violentamente o adversário e tentar derrota-lo em pouco tempo. Não era um condutor de massas, muito embora sua pena tivesse a força de muitos exércitos. Preferia atacar o mal de maneira sutil, pela ironia e pela vivacidade de espírito, dirigidas aos mais inteligentes. Solapava as bases do pensamento da época sem fazer nenhum estardalhaço. Era muito diferente daquele outro frade agostiniano, Martinho Lutero (1483-1546), que estava prestes a irromper como um furação para mudar toda a ordem econômica, política e religiosa da Europa.Em abril de 1511, Erasmo deixou a casa de Thomas More, sem ter conseguido obter a esperada pensão de Henrique VIII, cujo amor ao humanismo já tinha sido substituído pelo amor às intrigas da corte e à glória nos campos da batalha. Viaja então até Paris, a fim de publicar O Elogio, e retorna à Inglaterra, onde passa a ensinar grego e teologia na universidade de Cambridge. Em 1512 o arcebispo de Canterbury consegue-lhe um reitorado em Kent, com pensão anual de 20 libras, pagáveis inclusive no exterior, mesmo que deixasse de exercer as funções. Dois anos depois Erasmo transfere-se para Basiléia, na Suíça, tendo, pouco antes, redigido uma sátira contra o papa Júlio II (1443-1513).Em Basiléia liga-se ao editor Frobenius (1460-1517) e trabalha junto com os operários da tipografia, cuidando do texto grego e latino, além de apreciações críticas, do Novo Testamento e das Cartas de São Jerônimo. Liga-se também ao pintor Hans Holbein Jr. (1497-1543) que o retrata várias vezes, e desenha ilustrações para O Elogio da Loucura.Em meio aos trabalhos eruditos, Erasmo entra em contato, pela primeira vez, com Lutero, por meio de uma carta de Spalatinus, secretário do embaixador da Saxônia. O diplomata, entre outros assuntos, fala-lhe do jovem frade, que sente por ele a mais alta estima, mas não concorda com sua concepção sobre o pecado original. Não adota a opinião de Aristóteles, segundo o qual é justo aquele que procede com justiça. Para Lutero, só se é justo quando se está em estado de justiça. Em outros termos, Lutero acha que primeiro é preciso que o indivíduo seja transformado interiormente e justificado por Deus (Se apropriando, assim, da justiça divina por imputação) ; as obras viriam depois (como conseqüência).Nessa pequena discordância filosófica estavam contidas todas as diferenças entre os dois reformadores. Erasmo era um humanista no mais completo sentido, que acreditava integralmente nas possibilidades da razão humana distinguir claramente entre o bem e o mal, e que colocava no livre-arbítrio de cada um a fonte de todo autêntico pensamento religioso e da opção moral. Lutero esposava o agostinismo mais extremado, segundo o qual o homem é um miserável ser condenado ao pecado e à degradação, da qual só pode ser salvo pela graça divina; o homem não pode por si só atingir a beatitude eterna mediante aquilo que faça; é preciso antes entregar-se a Deus pela fé, como explicitado no Novo Testamento, especialmente nas cartas do Apóstolo Paulo. Erasmo procura a reforma pelo esclarecimento racional, Lutero afirma, antes de tudo, o poder da fé.A fé remove montanhas, a razão não; Assim, a Reforma seguiu o caminho de Lutero e incendiou o continente, a partir das famosas 95 Teses redigidas e afixadas na porta da Catedral de Wittemberg, em 31 de outubro de 1517.Erasmo, Lutero e o VaticanoA história posterior a essa data é marcada pelos pedidos dos outros reformadores no sentido de que Erasmo participasse das novas idéias religiosas, pois afinal todos queriam basicamente as mesmas coisas e o célebre humanista seria uma arma importante na luta, com toda sua cultura e erudição. Do outro lado ocorre o mesmo, com o Vaticano a solicitar a Erasmo que condenasse as teses de Lutero, para isso chegando mesmo a oferecer-lhe um posto de cardeal. Mas Erasmo não se deixa render, porque não concorda com nenhum dos lados. A Igreja lhe parece podre e a exigir profundas modificações, mas os reformadores eram, a seu ver, bárbaros e fanáticos. Além do mais, faz questão de conservar absoluta independência pessoal, e isso implica não tomar partido. O que poderia parecer covardia era, na verdade, o resultado de arraigada convicção de que os dois lados estavam errados e o verdadeiro caminho deveria ser criado pelo homem enquanto ser inteligente e livre.As paixões a seu redor o aborreciam, mas apesar disso continuava a executar seu trabalho intelectual. Em 1517 vem à luz a Questão da Paz, onde advoga o ideal de uma Europa unida e sem fronteiras nacionais. O próprio Erasmo não queria ser holandês, francês, inglês, italiano ou suíço, como realmente não foi, mas tão-somente um cidadão do mundo. E isso ele o foi com coerência e lucidez. Em 1522 publica uma nova edição ampliada dos Colóquios, na qual apresenta uma sociedade justa e racional, verdadeiramente cristã e amiga da paz, que julga possível existir no futuro. Em 1524 é a vez do pequeno tratado Sobre o Livre-Arbítrio, contestado dois anos depois pelo Servo Arbítrio (ou Livre-Arbítrio, Um Escravo), de Lutero. Como se tudo isso não bastasse, continua a trabalhar nas edições críticas dos textos originais dos primeiros padres da Igreja.








